Especialistas alertam para complicações hepáticas, cardiovasculares e metabólicas associadas a protocolos usados no meio fitness, muitas vezes sem segurança clínica e com potencial risco de morte
A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, comoveu a todos e trouxe ao debate os riscos associados ao uso de substâncias para ganho de performance física e estética. Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (25), o atestado de óbito aponta morte súbita por doença cardíaca.
Embora não seja possível estabelecer relação direta sem acesso ao histórico clínico completo, especialistas alertam que o uso indiscriminado de hormônios, anabolizantes e até insulina fora das indicações médicas representa um risco real para diversos órgãos.
“A aparência física muitas vezes mascara um adoecimento silencioso. O fígado é um dos órgãos mais afetados nesse contexto e, infelizmente, também um dos mais negligenciados”, afirma Patrícia Almeida Hepatologista, doutora pela USP.
Segundo a médica, o fígado é responsável pelo metabolismo dessas substâncias e pode sofrer danos importantes quando exposto a doses elevadas, combinações de drogas ou uso prolongado.
“Hoje observamos um cenário preocupante de uso cada vez mais precoce, agressivo e prolongado dessas substâncias, inclusive entre jovens. O problema é que muitas dessas alterações evoluem sem sintomas por meses ou anos”, explica.
Entre as complicações hepáticas relacionadas ao uso de anabolizantes e hormônios em doses suprafisiológicas estão hepatite medicamentosa, colestase intensa, esteatose hepática, alterações vasculares graves, peliose hepática, adenomas e até câncer de fígado.
“Aparência física não significa saúde hepática. Muitas lesões evoluem silenciosamente até fases avançadas de fibrose, insuficiência hepática ou surgimento de tumores”, alerta Patrícia Almeida.
Outro ponto que preocupa especialistas é o uso de insulina por pessoas sem diabetes dentro de protocolos voltados para hipertrofia muscular.
Dra. Paula Pires Endocrinologista da SBEM explica que a substância passou a ser utilizada no meio fitness por seu efeito anabólico indireto.
“A insulina favorece a entrada de glicose e aminoácidos nas células musculares, aumenta a síntese proteica e amplifica os efeitos dos esteroides anabolizantes. Por isso, muitos fisiculturistas utilizam a substância em ciclos de ganho de massa”, explica.
Apesar disso, ela reforça que o uso em não diabéticos pode ser extremamente perigoso.
“O principal risco é a hipoglicemia grave, que pode evoluir rapidamente com tremores, sudorese, confusão mental, convulsões, coma e até morte. A ausência de monitoramento médico adequado aumenta exponencialmente os riscos”, afirma.
Além das alterações glicêmicas, o uso inadequado da insulina também pode provocar retenção de líquidos, distúrbios eletrolíticos, arritmias cardíacas e alterações metabólicas importantes.
“A insulina não é um anabolizante clássico como os esteroides, mas funciona como um potente hormônio anabólico fisiológico. E justamente por isso seu uso fora do contexto terapêutico é extremamente perigoso”, completa a endocrinologista.
Para Dra. Patrícia Almeida, o atual cenário exige um debate mais responsável sobre o tema, especialmente diante da banalização promovida nas redes sociais.
“As redes sociais mostram o resultado estético, mas não mostram as complicações médicas associadas. Performance não pode ser construída às custas de dano orgânico silencioso e potencialmente fatal”, diz.
A hepatologista destaca ainda que pessoas que utilizam essas substâncias precisam de acompanhamento rigoroso, incluindo exames laboratoriais e avaliação estrutural do fígado.
“Além dos exames de sangue, ferramentas como ultrassom e elastografia hepática, como o FibroScan, ajudam a identificar precocemente fibrose e dano hepático silencioso”, finaliza.
Dra. Paula Pires Especialista em Endocrinologia, Metabologia e Clínica Médica
- Graduação pela Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília – UnB.
- Residência Médica em Clínica Médica pela UNICAMP.
- Residência Médica em Endocrinologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM USP).
- Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia- SBEM.
- Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia Pediátrica
- Membro da Endocrine Society, SBEM e ABESO.
- Preceptora de Endocrinologia no Hospital Beneficência Portuguesa (2014-2016)- discutindo casos endocrinológico e dando aulas sobre temas diversos na área de endocrinologia.
- Médica Endocrinologista da Saúde do Colaborador do Hospital Sírio Libanês até 06/2017.
- Faz parte do Corpo Clínico dos Hospitais Sírio Libanês, Nove de Julho e Albert Einstein.
- Fez o curso de Medicina do Estilo de Vida (Lifestyle Medicine) e gerenciamento do stress, sono e qualidade de vida pela Harvard Medical School- Curso: Tools for Promoting Healthy Change, junho de 2017 e de 2018.
- Membro ativa do American College de Lifestyle Medicine.
- Fez o curso em “Culinary Coaching” pelo Instituto de Medicina do Estilo de Vida do Spaulding Rehabilitation Hospital-Harvard Medical School- 2018.
Dra. Patrícia Almeida
CRM SP 159821
- Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (2010)
- Residência Médica em Clínica Médica no Hospital Geral Dr César Cals em Fortaleza-CE- (2011-12)
- Residência em Gastroenterologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo-(USP RP) (2013/15)
- Aprimoramento em Hepatologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP RP)- (2016)
- Aprimoramento em Transplante de fígado no Hospital das clínicas da Universidade de São Paulo (USP RP) (2017)
- Observership no Jackson Memorial Hospital em Miami/EUA 2017
- Doutorado em Hepatologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo
- Título de Especialista em Gastroenterologia pela FBG Título em Hepatologia pela SBH
- Hepatologista do Hospital Israelita Albert Einstein