“Novelas de frutas” viralizam nas redes e expõem nova lógica do entretenimento digital, avalia Multiverso Experience

Fenômeno impulsionado por inteligência artificial mistura humor, algoritmo e comportamento, mas também levanta alertas sobre conteúdo e impacto social

Reprodução internet

Personagens como “Abacatudo”, “Moranguete” e “Bananildo” podem até parecer inofensivos à primeira vista, mas estão no centro de um dos fenômenos mais curiosos, e controversos, do entretenimento digital recente. As chamadas “novelas de frutas”, produzidas com o uso de inteligência artificial, vêm acumulando milhões de visualizações nas redes sociais e chamando a atenção não só do público, mas também de especialistas e empresas do setor.

Com roteiros curtos, linguagem simples e estética inspirada em animações, os vídeos viralizam rapidamente ao retratar histórias de traição, conflitos e situações extremas do cotidiano. Ao mesmo tempo em que divertem, também levantam questionamentos sobre o tipo de conteúdo consumido, especialmente por públicos mais jovens.

Para Mohamad Rabah, CEO da Multiverso Experience, empresa referência em experiências tecnológicas e imersivas, o sucesso desse tipo de conteúdo está diretamente ligado à facilidade de consumo e à identificação com situações do dia a dia, ainda que em formatos exagerados. “Não sou um especialista direto no assunto, mas acredito que seja um conteúdo fácil de entender e assistir. Existe um modelo muito claro de viralização, com vídeos curtos e continuações, que é o que temos visto bastante nas redes. Ao mesmo tempo, retrata aspectos da realidade de muita gente, o Brasil é um país onde violência, traição e intrigas infelizmente fazem parte do cotidiano, embora muitas vezes isso venha de forma bastante vulgar”, analisa.

O fenômeno também evidencia uma transformação mais ampla na forma como o entretenimento é criado e consumido. Para Gabriela Moreira, Head de Marketing da Multiverso Experience, o sucesso das “novelinhas” vai muito além do humor. “Elas não viralizam por acaso. Existe um alinhamento muito forte entre comportamento humano e lógica de algoritmo. Esses vídeos funcionam como mini-narrativas, com começo, conflito e continuação, o que aumenta a retenção, uma das métricas mais importantes no digital hoje”, explica.

Segundo ela, outros fatores ajudam a impulsionar o alcance. “Tem a curiosidade, porque é algo completamente inesperado, ver frutas vivendo dramas humanos. O cérebro tenta entender aquilo. Além disso, é um conteúdo de baixo esforço cognitivo, em poucos segundos você já compreende a história. E existe o efeito de continuidade, como se fosse uma série. Isso cria um loop de consumo que aumenta o tempo de tela e a fidelização”, completa.

O impacto desse tipo de conteúdo já ultrapassa o entretenimento e chega ao mercado. Marcas, influenciadores e até instituições públicas passaram a surfar na tendência, enquanto cursos online prometem ensinar a criar conteúdos semelhantes como forma de geração de renda.

Para a Multiverso Experience, que atua na criação de experiências imersivas e conteúdo baseado em tecnologia, o fenômeno reforça um movimento maior: a convergência entre narrativa, tecnologia e comportamento. “O que estamos vendo é uma democratização da criação de conteúdo com apoio da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, isso exige mais responsabilidade de quem cria e também mais senso crítico de quem consome”, aponta Mohamad.

A discussão também acende um alerta sobre os limites entre entretenimento e impacto social. Apesar da estética lúdica, muitos desses conteúdos abordam temas sensíveis de forma superficial ou extrema, o que pode influenciar a percepção de públicos mais jovens.

Nesse cenário, especialistas e empresas do setor concordam que o desafio não está apenas em acompanhar tendências, mas em entender seus desdobramentos. Para Gabriela, o ponto central é claro: “Quando você combina surpresa, emoção e facilidade de consumo, o viral acontece. A questão é o que estamos fazendo com essa atenção depois”, finaliza.

Para o mercado de entretenimento, o recado é direto, mais do que nunca, entender comportamento e tecnologia deixou de ser diferencial e passou a ser essencial.